Cesto de Vime

Manhã de Domingo, inesperada e maravilhosa, esperava-se mau tempo mas assim não aconteceu, o que facilitou tudo para trabalhar com os meus alunos na escola, onde normalmente os ajudo a ter um cão educado e disciplinado mantendo uma boa qualidade de vida das pessoas que tem um cão como animal de estimação, fazendo-os compreender que os comportamentos naturais de um cachorro têm um significado natural, só tem que ser induzidos de uma maneira mais compatível para os podermos ter de uma maneira mais aceitável nas nossas vidas. Trabalho este gratificante que faz com que me sinta muito útil a esta sociedade onde a mentalidade, os costumes e tradições de possuir um cão ainda estão muito aquém do que de facto estes companheiros e fiéis amigos merecem.

Tudo correu bem, além de ter três grandes Rotweillers na turma que já se começam a confundir no meio de pequenos cachorros de todas as raças e indefinidas, mostrando o seu carinho e fidelidade instintiva que inicialmente não pareciam possuir, pois o seu porte inicialmente assusta qualquer um, mas, dentro daquelas enormes cabeçorras começa a transbordar ternura e não tendo, em alternativa, os comportamentos inatos e instintivos mais selvagens que possuem, vamos tentar reprimi-los dando lugar a outros mais compatíveis com a vida dos seus donos baseados em disciplina e obediência.
Estamos na segunda sessão de mais um curso de Formação que se realiza na linda freguesia rural de Gondizalves em Braga.
São catorze cães em formação com os respectivos donos, onde o convívio e socialização já é um êxito que faz com que todos os Domingos de manhã acordem excitados para ir para a escola brincar com os seus novos amigos e aprender novas regras, faz até, que mereçam mais atenção dos seus donos.
Como o sol espreitou, apareceram também alguns velhos alunos e elementos da nossa associação “ABAN” que, como habitual deram aquele tradicional clima e ambiente de convívio de pessoas que adoram e amam os seus cães, proporcionando-lhes um convívio saudável, fazendo reciclagem do treino de disciplina, exercício físico, treinos desportivos, treinos da coreografia das nossas demonstrações pedagógicas para escolas, onde tentamos mostrar ás crianças o que de facto é um cão como animal de companhia, alertando o necessário para o êxito desse compromisso, assim como, ter noção dos custos inerentes a cuidados de higiene e veterinários, educação, alimentação, estadia para as férias, etc. Já temos quatro intervenções solicitadas para trabalhos de Escolas relacionados com este tema.

Foi assim mais uma manhã, com uma imagem do bom relacionamento das pessoas com a natureza, o ambiente e os animais, sensação esta, de satisfação e de missão cumprida.

Este Domingo foi também especial porque era o aniversário da minha filha, e, no final de mais uma semana de trabalho, que para mim normalmente só termina no final das manhãs de Domingo, fui para um almoço de família festejar, terminando com uma boa e merecida sesta até ao final da tarde.

Eram cerca das 21 horas, reparei que os meus cães e alguns hospedes que aqui se encontravam neste fim-de-semana prolongado, estavam muito excitados e fui verificar o porquê de tanta excitação. Reparei que todos olhavam na mesma direcção, que é a de um riacho que passa aqui no limite da minha propriedade. Já muito escuro e a chover, saiu um som desesperado do fundo do rio que gritava desesperadamente, numa aflição angustiante, parecia de um cachorrinho! E era!...
 
Depois de verificar que a zona onde se encontrava era muito íngreme com cerca de três metros de profundidade, muito escura e como se não bastasse estava cheia de vegetação, decidi pedir ajuda e ir buscar mais equipamento. Rapidamente a minha filha veio em auxílio, fomos buscar uma escada, lanternas e virei uma carrinha com as luzes apontadas para o local. Assim, demos inicio á nossa operação de resgate. Travamos dificuldades com a vegetação que teve que ser cortada e arrancada, foi missão difícil porque deparamos com muitas silvas e ortigas. Depois de muitas arranhadelas e comichões, finalmente avistamos com a luz da lanterna, bem lá no fundo, um doce bebezinho mergulhado na água e com as suas pequenas patinhas agarradas num monte de escombros que provavelmente foram arrastados pela corrente do rio.
 
Foi aí que arranjei espaço para introduzir as escadas com muito cuidado para não assustar o cachorrinho, desci, com uma luz fraca apontada pela minha filha, consegui deitar-lhe a mão e retira-lo daquele sofrimento e agonia, que mais alguns minutos já não seria a tempo de resgatá-lo com vida.
 
Rapidamente fomos colocá-lo num local confortável e quente. De seguida voltamos ao local, com receio que pudesse haver mais vitimas, e, para nossa aflição reparamos que se encontrava um cesto de vime que nos fez logo pensar que teria sido um premeditado abandono e poderiam existir mais cachorrinhos. Este local encontra-se junto ao muro limite da propriedade juntamente com o rio o que nos fez dar início a novas buscas. Não encontrando nada, o que nos fez sentir mais aliviados, decidi descer novamente as escadas e verificar no rio onde naquele local se encontra uma ponte. Tinha muito lixo que com estas ultimas chuvadas estava um pouco amontoado fazendo uma pequena represa e foi precisamente aí que vi quatro corpos de cachorrinho a boiar naquelas águas agitadas e poluídas do nosso rio Torto que já fora límpido e cheio de vida e que agora presos nos seus escombros se encontrava a morte impedida de seguir rio a baixo. A angústia e revolta era tanta que o característico nó na garganta me impedia de falar, nem sabia como dizer á minha filha que mostrava entusiasmo e felicidade por ter salvo a vida de um cachorrinho e mal sabia que os seus quatro irmãozinhos tinham morrido afogados numa tentativa desesperada de salvar as suas vidas.

Subi, repus-me emocionalmente e contei-lhe, a reacção, dado a sua sensibilidade adquirida por estar habituada a tratar destes maravilhosos seres, não é descritível.

Depois de chorar e reflectir um pouco, tentamos analisar o que de facto teria acontecido. Concluímos que, mais uma vez, alguém decidiu abandonar uma inconveniente ninhada.

Decidiram tirar de uma mãe que teve a oportunidade de criar aqueles lindos cinco filhos que depois de os parir, cortou-lhes os cordõezinhos umbilicais, aqueceu-os, amamentou-os, protegeu-os conduzida por um instinto materno que foi herdado dos seus antepassados, fruto da natureza e evolução e, passados cerca de quarenta ou cinquenta dias, lhe foram arrancados para um cesto de roupa suja que assim serviu também para uma atitude suja, nojenta, desprezível, insensível, cobarde, repugnante, etc.

Cinco cachorrinhos lindos, de raça indefinida, pelas características pareciam ser cruzamento de Boxer, Castro Laboreiro, Rotweiller ou Cão der Fila, pois eram ti grados e havia um preto que me leva para a ideia do Rotweiller..

Não sei se aproveitando o que parecia uma linda tarde de Domingo, ou até num passeio familiar, estes criminosos arremessaram o cesto de vime lacado em branco, borda fora para dentro da minha propriedade. Sobreviveram á queda que tem cerca de três metros de altura abrindo-se a tampa, o cesto ficou a cerca de dois metros do rio, talvez desorientados, ou com sede, tiveram o comportamento de se dirigirem para o barulho da água a correr, onde escondida pela vegetação existe um precipício até ao fundo e inocentemente todos se deslocaram para lá, para a sua segunda queda, não sei se todos ao mesmo tempo ou um de cada vez e a partir daí, quanto tempo levaram estas pequenas e dóceis criaturas a lutar pela vida sem entenderem porque motivo saíram do ventre de uma mãe carinhosa, quente, que lhes satisfazia todas as necessidades de sobrevivência e que, de um momento para outro caíram, rebolaram, ao frio, molhados, a gritar às escuras, agarrados a um pau, agarrados á vida que lhes foi negada e onde infelizmente o grito de desespero só serviu para salvar uma.

Foi assim o meu Domingo que parecia um dia feliz, realizado familiar e profissionalmente e terminou com a tragédia, angústia e frustração de não poder evitar estas situações que continuam a marcar e ferir a nossa sociedade.

Mas de um momento para outro surgiu outro grito nesta noite fatídica que não parecia dar descanso ás nossas emoções, provindo dos meus canis, logo me desloquei rapidamente e encontrei um cachorro que acabara de dar o seu sopro de vida, nascendo como se estivesse a substituir as vidas perdidas, era a minha cadela de Pastor Alemão que estava a dar inicio a um parto, que depois da sua oportunidade de vida, arranjo donos responsáveis que darão continuidade a uma tradição que vem do tempo do homem sapiens que já na sua época dava uma interacção aos canídeos que hoje em dia não é honrada por muitas pessoas que continuam a abandonar estes seres maravilhosos. Não podemos esquecer que à milhares de anos eles eram úteis até por motivos de sobrevivência da nossa espécie e hoje em dia servem para nos fazer companhia, partilhar o ambiente, não nos sentindo únicos neste mundo urbano, possibilitam a manifestação emocional e carinhosa necessária ao bom relacionamento de todos, isto é, quem não é capaz de fazer um carinho que é retribuído de certeza, a um cão, e que se calhar não tem possibilidade de o fazer a mais ninguém! Estamos a falar de idosos e crianças que no seu dia a dia necessitam de manifestar e expandir estas sensações e emoções. Servem para o nosso entretenimento através da sua inteligência e habilidade, na caça, nos campeonatos desportivos e morfológicos, servem para nos sentir mais seguros alertando situações mais difíceis aplicando os seus instintos naturais de protecção, para resgate de vítimas em catástrofes naturais, auxílio de invisuais, auxiliares de deficientes motores, servem as nossas forças de segurança na ordem pública, na busca de estupefacientes, explosivos, crimes, etc.

Mais uma vez num momento de reflexão vi um grito de desespero na morte e outro de felicidade na vida, momentos tão próximos em que um deles não tinha significado, não tinha justificação, não era racional, não encaixava nos nossos valores humanos, cívicos, morais, racionais e que me faz perguntar porquê... Porquê continuam as pessoas a abandonar estes fieis amigos que existem simplesmente porque sempre nos foram fieis e úteis …
Felizmente na nossa cidade existe um serviço camarário que comporta a resolução para estes problemas. No dia seguinte a este fatídico Domingo 25 de Maio e depois de enterrar os que não sobreviveram, encaminhei o sobrevivente para as instalações da câmara municipal administradas pela AGER que depois de isentarem a respectiva taxa passariam a trata-lo dignamente até ser integrado num programa de adopção e integração social. Este gesto é tão simples e eficaz que me fez questionar tudo isto, onde a mil e quinhentos metros da minha casa estava uma solução simples e prática.

Pensei então o que poderia fazer para evitar tais situações?

O que me ocorreu foi gritar também!

Na esperança que alguém me oiça e salve milhares de cães que são abandonados nesta época que se avizinha, denunciando estas ocorrências publicamente na esperança de sensibilizar as pessoas a gritar também contra os conhecidos e vizinhos que possam tomar idênticas atitudes, responsabilizando-os evitando o flagelo do abandono de cães nas nossas cidades.

Fernando Vilaça
Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar